A imagem de uma onça pintada aparece na televisão . Então diz a Carolina:
_ Hei, mãe!!! Olha o leão pardo!!
Bordado, arte e memória.
Eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Ah! Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela,
Quem é ela, quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle.
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado.
Meninos no lixão em Irecê, Bahia. Foto de Raphael Paiva.
Molecada do lixão, Irecê, Ba. Foto de Raphael Paiva.
Índios da reserva Inhacapetum, em São Miguel das Missões, RS. Foto de Raphael Paiva.
Algumas profissões vão tornando-se obsoletas e hoje é raro encontrar-se um bom sapateiro. Ah! Mas eu conheço um. Dos bons. É... mas ele já não trabalha. Aposentou-se. No entanto, meu tio Antônio forrava sapatos como ninguém! Para que forrar sapatos?! Ué... usava-se naquela época: nos casamentos ou nos grandes eventos, as mulheres cobriam os sapatos com o mesmo tecido do vestido. Outros tempos... Ficava uma lindeza! Cobertos de renda, tecidos brilhantes, tafetás... Eu jamais vou me esquecer daquele ambiente da sapataria do meu tio. Tanto preguinho, tachinha, pregão... aquelas caixinhas infindáveis com todo tipo de materiais, solas de couro, saltos infinitos... minhas primas sempre sabiam o salto que estava na última moda. Foi nessa época que eu soube que tinha um salto chamado carretel. Não é bonito? E as fôrmas?! Uau... e o cheiro inconfundível de couro, cola... Calma! Eu nunca cheirei cola: meu tio escondia e vigiava tanto aquelas latas, que eu nunca havia entendido bem o motivo. Adorava vê-lo com seu avental todo sarapintado de tintas, graxa, cola... e ele sempre com a fôrma no colo, ajustando, moldando e martelando solas, pregando, colando, cortando... Deve dar um gostinho todo especial saber fazer algo que quase mais ninguém no mundo sabe, não é? Segredos incontáveis...