sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Colibri

Hoje amanheci mais velha. Qual a sensação? Não muito diferente de todos os outros dias, afinal, todos os dias eu acordo um pouco mais velha. E assim a vida passa. E nem sempre a caravana ladra. Entretanto, também acordei naturalmente mais reflexiva. E veio-me à mente aquela letra do Chico:

Não. Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
E as bailarinas no grande final

Chove tanta flor
Que sem refletir
Um ardoroso espectador

Vira colibri.

Qual! Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação

Membros de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si.

Não. Não sei se é vida real
O invisível cordão
Após o salto mortal.


(Chico Buarque e Edu Lobo - O Grande Circo Místico)

Aos 46 anos, tenho consciência de que hoje me doem um pouco mais os ombros. Mas está bem: ontem me doíam as pernas... Assim vou levando a vida, para que a vida não me leve - como prefere o Zeca. Não ainda. Porque quando tanta gente que eu gosto deixa aqui um recadinho, ou liga para me lembrar que continuam de olho na contagem do tempo, eu decido logo: preciso dar continuidade aos meus projetos. Desde os mais banais (como manter minha casa funcional, limpa e aconchegante - é, estou falando de lavar, passar, cozinhar e decorar, sim); passando pelos mais prazeirosos (como continuar mantendo este blog ativo); tratando dos mais úteis (como concluir o livro que estou fazendo junto com um amigo para o centenário de Noel Rosa, com arranjos para coro das suas músicas); assumindo os trabalhos incontornáveis (continuar minhas edições musicológicas); não esquecendo os indispensáveis (como regar os vasos dos amores que tenho plantado vida afora); até aos mais nobres (assumir a educação de um outro ser humano, dar-lhe suporte, ensinar valores, responsabilidades, mostrar-lhe o caminho da felicidade e da diversão conjunta); e para não dizer que não falei das flores, cultivar sempre os amigos (propiciar novos encontros, acarinhar os antigos, zelar daqueles de sempre). Porque se as vezes eu me sinto atarantada e ansiosa com tantos pratos para manter sempre girando...

Por outro, eu me sinto como o espectador do grande circo: não quero adiar nada para outra encarnação, que eu nem sei se há. Aos 46, ainda sinto-me tão encantada com a magia da vida que, se não botar tino na coisa, sou capaz de virar colibri!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Frio

O problema do frio é que, por mais que se consiga manter algumas partes bem aquecidas, há sempre outras que ficam de fora e estragam a boa disposição geral. Por que não dá para ter tudo quentinho o tempo todo agora?!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Levar a vida

Ao contrário do Zeca Pagodinho, eu não gosto nada desse negócio de deixar a vida me levar: eu ainda prefiro levar a vida! Calmaí, que eu tô tentando retomar as rédeas da situação...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Função do artista

Vamos fazer uma brincadeira?!
Ouça este videoclip e tente encontrar as seguintes frases:
Quando você for convidado(...)
Pra ver do alto a fila de soldados pretos,
e são quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros
pretos e ladrões mulatos
E outros quase brancos tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos, pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão
pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento
voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados(...)
Não importa nada: (...)
Ninguém é cidadão.
(...) A grandeza épica de um povo em formação
nos atrai, nos deslumbra e estimula.
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado (...)
Se o venerável cardeal disser que vê tanto
espírito no feto e nenhum no marginal (...)
Pobres são como podres (...)
E todos sabem como se tratam os pretos (...)
(...) E quando você for
(...) apresentar sua participação inteligente (...)
Pense no Haiti, reze pelo Haiti:
O Haiti é aqui.
O Haiti não é aqui.
(Caetano Veloso e Gilberto Gil- 1993)
Encontrou?!!
Então agora, se calhar, consegue perceber qual é uma das muitas funções de um artista: ser porta voz de sua época, estar "antenado" com as questões de seu povo, antecipar, falar, propor, ver, rever, instigar, levar à reflexão...
Não, eu não vou aqui fazer nenhuma defesa de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eles já valem por si. Vou só me juntar à reflexão e ao coro, enquanto tento descobrir uma maneira inteligente de contribuir para a solução do problema :
Pense no Haiti, reze pelo Haiti:
O Haiti é aqui.
O Haiti não é aqui.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Beija sapo

Eu estou desconfiada que a Carolina andou beijando algum sapo no caminho da escola...
Como eu suspeito disso?! Veja bem como ficaram os seus dedinhos :
Acho que ela tá se transformando numa perereca com mãozinhas de batráquia!
Eu não disse que beijar na boca dava sapinho?!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tons de branco

Dizem que nossa língua não tem tantas palavras para definir o branco da neve quanto a língua dos esquimós. Explica-se o fato pela vivência e conhecimento mais aprofundado que estes povos têm da neve. Você concorda? Olhe bem as imagens que se seguem. Vamos ver se nós temos esse olhar treinado e se conseguimos definir os diferentes tons de branco? Branco longe...
Branco fofo...
Branco acumulado...
Branco descansado...
Branco alaranjado...
Branco amontoado...
Branco por todo lado...
Branco adocicado...
Branco avermelhado...
Branco textura...
Branco às pencas...
Branco me leva para dentro daquela casinha de passarinho lá atrás...
Branco larga do meu pé...
Branco poroso...
Branco tire as botas senão você vai sujar a casa toda!
E então? Conseguimos?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Meu coração tropical está coberto de
neve, mas ferve em seu cofre gelado.
A voz vibra, e a mão escreve "MAR".
(João Bosco e Aldir Blanc)