Se há algo que adoro é conversa inteligente sobre coisa nenhuma. Numa dessas, com um dos meus interlocutores prediletos, também conhecido como João Luís Carvalho, disputávamos quem tinha a memória mais arcaica, lembrando de móveis e utensílios que caíram em desuso e hoje ninguém mais sabe do que se trata. Lembramo-nos de coisas do arco da velha, como braseiros, escarradeiras, penteadeiras, e o João saiu-se com um tal de Pixixé (escrevo como entendi, afinal, eu entreguei os pontos nessa hora, porque decididamente eu nunca ouvira falar em pixixés e nem sabia que a palavra existia. Pensei até que fosse invenção dele. Hoje, no entanto, me deparei com a seguinte frase no livro "Ana em Veneza", do brasileiro João Silvério Trevisan:
"Junto à última parede, o deslumbrante psiché de jacarandá, com a banqueta estufada que mãe usava para pentear-se diante do espelho. (...) Dodô teve tempo de ver o lindo psiché Biedermeier passar diante dela, amarrado dentro de um carro de boi, aos solavancos, indo embora em meio a outros trastes."
Claro, corri ao dicionário só para confirmar: o que os portugueses pronunciavam como pixixé, vinha de Psiché, ou Psyché. Sim, estamos falando de mitologia grega, meus senhores! Senão, vejamos:
PSICHÉ - (Do mit. gr. Psyché, atr. do fr. psyché) Grande espelho móvel e inclinável montado numa armação; Móvel de toucador, com grandes espelhos e muitas gavetas. (Dicionário Aurélio)
Ah! O português, os portugueses, e seus encantos! Inacreditáveis os caminhos de nossa língua (sem segundas intenções, por favor)!
Agora, eu pergunto: O que uma penteadeira ou toucador têm a ver com o mito de Psyché? Algum filósofo ou psicólogo de plantão por aí?
TCHAN TCHAN TCHAN TCHANNNNNN...
Não percam, cenas dos próximos capítulos...
Apesar da complexidade mitológica, eu arriscaria o imediatismo da ligação entre o espelho e o amor pela beleza. Clique no link para saber mais sobre o mito de Eros e Psiquê e arrisque suas próprias conclusões.