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sexta-feira, 30 de julho de 2010

O guarda-freio

Depois de subir o elevador do Lavra em Lisboa, não resisti e fui falar com o senhor que conduzia o dito cujo. Sim, porque eu fiquei imaginando como é que se chamaria aquela função que ele exercia...
(rufar de tambores)...
Ta-rãnnnnnnnn... Guarda-freio!!!
Viu só?! Aprendemos mais uma hoje, heim?! Você imaginava uma coisa destas? Guarda-freio. É verdade que os portugueses gostam de ter "guardas" em muitos lugares... Por exemplo, o goleiro em Portugal é chamado de guarda-redes. Então nada mais lógico que o senhor que conduz o elétrico para que as pessoas possam ascender ao outro terreno se chame guarda-freio. Fala sério: eu nuuuuuunnnnnca ia adivinhar o nome desta profissão. Antiga, já quase extinta na face da terra, mas com um requinte de poesia inegável aos olhos de hoje. E qual não foi a decepção da Carolina quando tivemos que descer:

_... mas já chegou?!

_ Claro. Onde mais você queria ir?

_ Pensei que a gente ia dar um passeio de elétrico, e já acabou... Eu nem vi nada!

_ Ok, menininha... da próxima vez você sobe a pé.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sapateiro

Algumas profissões vão tornando-se obsoletas e hoje é raro encontrar-se um bom sapateiro. Ah! Mas eu conheço um. Dos bons. É... mas ele já não trabalha. Aposentou-se. No entanto, meu tio Antônio forrava sapatos como ninguém! Para que forrar sapatos?! ... usava-se naquela época: nos casamentos ou nos grandes eventos, as mulheres cobriam os sapatos com o mesmo tecido do vestido. Outros tempos... Ficava uma lindeza! Cobertos de renda, tecidos brilhantes, tafetás... Eu jamais vou me esquecer daquele ambiente da sapataria do meu tio. Tanto preguinho, tachinha, pregão... aquelas caixinhas infindáveis com todo tipo de materiais, solas de couro, saltos infinitos... minhas primas sempre sabiam o salto que estava na última moda. Foi nessa época que eu soube que tinha um salto chamado carretel. Não é bonito? E as fôrmas?! Uau... e o cheiro inconfundível de couro, cola... Calma! Eu nunca cheirei cola: meu tio escondia e vigiava tanto aquelas latas, que eu nunca havia entendido bem o motivo. Adorava vê-lo com seu avental todo sarapintado de tintas, graxa, cola... e ele sempre com a fôrma no colo, ajustando, moldando e martelando solas, pregando, colando, cortando... Deve dar um gostinho todo especial saber fazer algo que quase mais ninguém no mundo sabe, não é? Segredos incontáveis...
Aí eu estava vagando por Viana do Castelo quando vi esta portinha aberta:
Ah! Que legal! Um sapateiro como se deve... Não resisti, puxei prosa, pedi para tirar uma foto. Claro. Ele não deve ter entendido nada. Só que eu não podia deixar de aproveitar uma oportunidade tão rara destas.
Então como você acha que eu vou explicar para a Carolina que sapatos não nascem dentro de uma caixinha na loja do shopping?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Um dedal de prosa

Maria Adelaide, professora de bordado na Associação dos Artesãos da Região de Lisboa, foi quem me introduziu na arte de usar um dedal. Parece bobagem, não é? Mas veja se uma coisa destas tem ou não sua ciência : Eu já dava minhas alfinetadas e agulhadas com o muito que aprendera com minha mãe. Contudo, eu nunca havia usado um dedal. Não me sentia bem, sei lá... Sentia-me amarrada, perdia a sensibilidade e outras muitas desculpas que arranjava para nunca ter tido jeito com a coisa. Nem via assim tanta utilidade nesse minúsculo acessório. Achava que não me fazia falta. Enfim...

Fui tentando com jeitinho e não foram poucas as vezes que o danado me caíra da mão. Aí ela percebeu logo o problema: eu não puxava a agulha para mim, e sim, empurrava-a. A posição estava completamente errada. Ensinou-me que devíamos trazer sempre a ponta da agulha em direção ao nosso corpo e não empurrá-la em sentido oposto.



Assim, o topo do dedal deveria ser usado, e não as laterais, como eu estava fazendo. Disse-me que eu costurava como um alfaiate. Fiquei a pensar naquilo... Devia encarar como uma ofensa ou um elogio?

Bem... eu nunca soubera disso: os homens costuram de um jeito, as mulheres de outro. Ela então me explicou que por isso o dedal dos alfaiates era aberto no fundo. Eles não usavam o topo do bichinho, ao contrário das mulheres. Claro... eu já vira muitos dedais abertos pela vida afora, mas pensava que era só uma questão de escolha, ou simpatia. Que nada!

Você já tinha reparado nisso?!

Veja bem como é o dedal dos alfaiates:


E desses outros tipos aqui, que são abertos num dos lados? Já entendeu para que servem?

Isso mesmo! Servem para quem quer manter as unhas compridas! A costureira pode utilizar a polpa do dedo protegida, e manter suas lindas unhas! ehhehehehe

Quanta novidade num mundinho que me parecia tão pequeno e já predefinido!

E foi tentando encontrar mais dados sobre o assunto que descobri o quão pouco há disponível sobre isso. Há uma maneira tradicional de se iniciar no ofício de alfaiate: geralmente, prende-se o dedo médio à mão, para condicionar a empunhar corretamente a agulha e o dedal.

No site http://www.englishcut.com/archives/2005_11.html tem um bom truque, detalhado e ilustrado. Foi de lá que eu tirei essa imagem que mostra exatamente como fica a posição da mão do alfaiate:

Descobri que a profissão de alfaiate é uma profissão em vias de extinção, que dedais estão em desuso, quase que viraram apenas artigos para colecionadores. Umpf! Dedais estão em desuso?!!! Por acaso furar o dedo está em desuso?!!!

Acho que o que anda em desuso é a cérebro das pessoas! Cada vez menos gente sabe usar um dedal, mas no fundo, no fundo, todo mundo tem uma linha e agulha em algum cantinho da casa para acudir um botão que cai, uma bainha que despenca. Mal e porcamente. Mas, no geral, todos têm. Ou não? Será que ando tão fora do planeta assim? Então, moçada, 'mbora comprar dedal para resguardar os dedinhos! Até porque "a costureira, sem dedal, cose pouco e mal".

Bom, mas nessas minhas divagações eu reencontrei também o Museu da Pessoa, com histórias lindas sobre antigos alfaiates, e antigas profissões. Emocionante! Já foi lá? Não? Então vá:
http://www.museudapessoa.net/

Ah! E se um dia alguém quiser me dar o mais lindo presente do mundo, olha aí uma sugestão:


Uau!!! Estojos para dedais!... para pendurar no pescoço! Lindeza!!!!