Ó menina, vai ver nesse almanaque
como é que isso tudo começou
Diz quem foi que fez o primeiro teto,
Que o projeto não desmoronou?
Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto,
E o valente primeiro morador?
("Almanaque" , de Chico Buarque)
sábado, 19 de setembro de 2009
Rendas no teto
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Vou lembrar o Síndico
Acabei de ouvir o comovente audiolivro que conta a vida do Tim Maia. Chama-se Vale tudo, e foi escrito pelo Nelson Motta. Lá pelo último capítulo, comecei a adiar a escuta. Geralmente é o contrário: quando o fim se aproxima, eu acelero a leitura, os acontecimentos vão se precipitando e não se consegue parar de ler ou ouvir. Nesse caso, eu fui ficando tão mais apaixonada pelo personagem que, pressupondo que a biografia só podia terminar com sua morte, fiquei tentando retardar esse momento. Como se assim pudesse salvá-lo.
Lembrei-me que numa exposição em 1994 eu havia lhe feito uma pequena homenagem. Este foi o único trabalho que me restou e o tenho ainda hoje em casa.
Agora, passados 15 anos, depois de conhecer um pouco mais da sua vida, eu o acho ainda mais bacana. E gosto infinitamente da sua música. Sua interpretação da besta em O Grande Circo Místico, de Chico Buarque e Edu Lobo, é uma contribuição antológica para a Música Popular Brasileira. Para não falar de tantas outras.
Grande intérprete, grande compositor, swing incomparável,... melhor para dançar não há.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Sapato velho
Os sapatos da infância nos aquecem a alma.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Santinhos, botões, manias e herança genética.



Já meu avô Plínio, tinha mania de colecionar botões. Isso mesmo: botões simples, de camisa, de tudo que era tipo e cor, que ia encontrando pelo caminho. Também guardava-os nos vidros, dentro da mesma cristaleira. Eu ficava deliciada com aquelas pecinhas pequenas estimulantes aos olhos. E quando lhe perguntava porque guardava assim tantos botões tão diferentes, ele respondia com um ar de quem sabe das coisas: "Porque um dia, pode ser que eu perca um botão da minha camisa, aí então é só procurar um que seja igual ao que eu perdi e repor". Confesso que nunca entendi sua lógica, porque não estava a ver que, num universo infinito de botões, como é que alguém ia ter 5 botões iguais numa camisa e coincidentemente iria ter encontrado ao acaso no chão de uma rua qualquer, justamente um outro botão igualzinho ao que faltava?! Para mim, um botão sozinho, perdido, também tinha perdido para sempre sua camisa. Estava só no mundo. De qualquer forma, não conseguia desgrudar os olhos daqueles enormes vidros cheios de possibilidades que nunca se realizariam.Tinham um verdadeiro ar de promessa.
Um dia, ao sair do metrô no Largo do Rato em Lisboa para mais um ensaio de música (agora quem cantava ópera era eu), meus olhos foram fortemente atraídos por um solitário botão, ali caído aos meus pés. Imediatamente senti aquele prazer quase inconfessável me inundar e não conseguia desviar os olhos. Resolvi deixar de bobagens e apanhei-o, não sem antes verificar à minha volta se ninguém me observava. Quase sentia vergonha da imensa atração que o pequeno objeto me causava. Naquele mesmo dia assumi minha herança genética e comecei eu a colecionar meus próprios botões. É... continuava a não fazer sentido algum, mas davam um enorme gozo!
Mais tarde, acho que para justificar tamanho disparate, resolvi dar um rumo diverso aos botões: construí um canteiro de botões em flor e escrevi-lhe nos cantos (permita-me o trocadilho) a letra da canção de Fagner com poema de Cecília Meireles, que por sí só já é um poço de nostalgia: "Quando penso em você/ Fecho os olhos de saudades/(...) Deixemos de coisa e cuidemos da vida/ Senão chega a morte ou coisa parecida/ E nos arrasta moço sem ter visto a vida".
Como poderia ter dito Drummond, hoje minha mania de botões é só um retrato na parede. Mas como dói. Saudades do meu avô.
domingo, 9 de agosto de 2009
Grande aprendizado
O DKW (lia-se Dekavê) era esse carro aí, e meu pai teve dois deles: um azul e outro assim cor de beringela, mais ou menos... Se você não tem ideia de qual época era esse carro, eu posso lhe garantir que naquela altura a gasolina era tão barata, mas tão barata, que meu pai nos fazia dormir dando voltas de automóvel por toda a cidade... quando exaustos e mareados adormecíamos, ele nos levava ao colo para a cama. Ih! faz tempo demais! Pois é... foi aí que ele ensinou-nos a lavar a máquina: ele ia até uma cachoeira, fechava os vidros, e enfiava o carro debaixo da queda d'água, depois de driblar cuidadosamente as pedras do chão bruto do leito do riacho. Achávamos aquilo uma maravilha, nem de longe comparado ao prazer da Carolina de acompanhar a lavagem de hoje em dia nos modernos lavajatos. Ficávamos vigiando para ver se a água não começava a entrar por baixo, no vão das portas... Mas havia um outro momento, que invariavelmente acontecia, e que a memória dele parecia não registrar: aquele em que o carro sempre 'afogava' antes de chegarmos em casa, e o cheirão de gasolina enchia-nos as narinas e a fedentina se espalhava... então descíamos todos, e toca a empurrar!!! Nada fazia aquela geringonça funcionar!!! Algumas vezes, ela pegava no tranco, e era uma festa ouvir finalmente aquele motor a dois tempos encher o ar com seu indefectível 'pó pó pó pó' e sua fumaça azulada... Aquelas tardes me fizeram entender as leis de causa e efeito, sem contudo duvidar do imprevisível de nossas existências. Era a alegria pura das pequenas coisas compartilhadas. Para quem achou a história de todo inverossímil, aí vai a prova fotográfica de um dos bons momentos com nosso DKW. Valeu, paizão!













