Hoje deparei-me com uma curiosidade: Nara Leão cantando Night and Day, de Cole Porter. Mas é uma versão em português, feita por Nelson Motta. Quer ouvir?
Slowly growing patchwork.
Há 17 horas
Bordado, arte e memória.
Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem
que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem, não existe mais.
Agora já não é normal
o que dá de malandro regular, profissional,
malandro com aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social,
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se dá mal.
Mas o malandro pra valer, não espalha,
aposentou a navalha,
tem mulher e filho, e tralha, e tal...
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
mora lá longe e chacoalha num trem da Central.
(Homenagem ao malandro - Chico Buarque- 1978)
Acho que o feriado que eu mais gosto é o da Semana Santa. Isso está no DNA do mineiro. Certa feita, conversando com um amigo português, eu contei-lhe que era mineira e ele rindo-se disse que adorava nos imaginar com aqueles chapeuzinhos.
Mineiro gosta de procissão, de por as colchas na janela, de enfeitar as ruas com infinitos tapetes de serragem colorida, acender vela, manter sempre um vasinho de flores para a santa no oratório... Claro, para se garantir, também frequenta um terreiro, lê toda a literatura espírita, joga flores nas cachoeiras para Iemanjá no Ano Novo... Não importa. O importante é ter fé. O mineiro é um ser humano de fé.
Então, esteja eu onde estiver, quando chega a época da Semana Santa, Minas me chama. Fico lembrando-me que está na altura de preparar o tapete, que devem estar cantando essa ou aquela outra obra na igreja tal, que costelinha com carolo de milho e ora pro nobis é uma delícia!!!... Ai, saudades da culinária mineira! Claro, isso é só na Páscoa!!! Antes, há que jejuar. Sábado da aleluia é dia de assombração. Malhação do Judas... Sexta-feira tudo é pecado! A procissão do enterro... Mas lembrei do prato típico, porque só mesmo Minas para ter uma erva para se colocar na comida com o nome de ora pro nobis. Você já provou?! É por isso que, quando um prato é muito bom, o mineiro diz que é de comer rezando. Rezando para livrar um pouco o pecado da gula... sei lá... Há quem diga que gastronomia é comer olhando para o céu. Eu prefiro comer rezando para aliviar a culpa.
Essas fotos, que não são lá grande coisa, são da confecção do tapete para a procissão do Domingo de Páscoa em Ouro Preto. Feitas na madrugada de Sábado para Domingo. Quando a procissão passa, pisando o tapete, vai desfazendo todo o trabalho da noite. Mas antes disso, ninguém pode pisar. Assim, parte dos moradores está ocupada em fazer o tapete, outra parte se encarrega de vigiá-lo para que nada ou ninguém possa desfazê-lo antes da hora.
Para aguentar o frio da madrugada, nada como um bom garrafão de vinho e muita música. Canta-se a noite toda. O que cantam? Serestas. Coisas como "Elvira escuta", "Lua branca", "Rosa", e tudo o mais que alguém se lembrar, afinal é música para durar a noite toda... Começa com 2 ou 3 músicos e, à medida que tocam margeando o tapete, outros músicos profissionais e amadores vão se juntando.... quando o dia está a amanhecer, quase toda a cidade já engrossa o cordão improvisado de cantores e músicos.
É por isso que eu adoro essa época. Semana Santa em Minas é de lavar a alma! Todos os mineiros o sabem. E NORMALMENTE não dizem a ninguém. Assim, ficam me devendo essa, ok?
Não é que ela é boa nisso?! Note-se que ela, aos 5 anos, ainda não é alfabetizada. Só imita os desenhos das letras e coisas que vê, feito uma papagaia de lápis na mão. Mas percebeu logo que estava misturando duas escritas diferentes e cancelou com um xis as letras do alfabeto que tinha colocado umas bolinhas na ponta como se fossem música. Deixou só as "notas musicais". Como foi que ela chegou a essa conclusão sozinha?! Mistééério...Quando você for convidado(...)Pra ver do alto a fila de soldados pretos,e são quase todos pretosDando porrada na nuca de malandrospretos e ladrões mulatosE outros quase brancos tratados como pretosSó pra mostrar aos outros quase pretos(E são quase todos pretos)E aos quase brancos, pobres como pretosComo é que pretos, pobres e mulatosE quase brancos quase pretos de tão
pobres são tratadosE não importa se os olhos do mundo inteiroPossam estar por um momento
voltados para o largoOnde os escravos eram castigados(...)Não importa nada: (...)Ninguém é cidadão.(...) A grandeza épica de um povo em formaçãonos atrai, nos deslumbra e estimula.E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado (...)Se o venerável cardeal disser que vê tantoespírito no feto e nenhum no marginal (...)Pobres são como podres (...)E todos sabem como se tratam os pretos (...)(...) E quando você for(...) apresentar sua participação inteligente (...)Pense no Haiti, reze pelo Haiti:O Haiti é aqui.O Haiti não é aqui.(Caetano Veloso e Gilberto Gil- 1993)
Alô, pessoas! Hoje eu tô tão feliz, mas tão feliz, mas tão feliz!!!... Precisava contar para vocês: é que F I N A L M E N T E saiu a Enciclopédia da Música em Portugal no século XX. E essa alegria toda deve-se ao fato de eu ser autora de duas das entradas - uma sobre o Carnaval e outra sobre o Entrudo. O que são 2 entradas no meio de um total de 1200 entradas distribuídas em 4 volumes? Nada. Mas não é bacana? Gosto de pensar que também é um pouco minha. O lançamento será só no próximo dia 21. E eu adoraria estar lá. Será que vai dar? De qualquer forma, fica o gostinho de rever mais um dos muitos rastros que deixei por aí.Gosto muito de te ver, leãozinhoCaminhando sob o solGosto muito de você, leãozinhoPara desentristecer, leãozinhoO meu coração tão sóBasta eu encontrar você no caminho.Um filhote de leão raio da manhãArrastando o meu olhar como um imãO meu coração é o sol, pai de toda corQuando ele lhe doura a pele ao léu.Gosto de ficar ao sol, leãozinhoDe te ver entrar no marTua pele, tua luz, tua jubaGosto de ficar ao sol, leãozinhoDe molhar minha jubaDe estar perto de você e entrar no mar.
Não sei se isso é cômico para todo mundo, mas eu acho engraçadíssimo ela cantando essas palavras, porque a letra é muito original e fica parecendo meio desadequado à idade dela. No entanto, quem conhece o filme sabe que é uma forma das crianças irem entrando em contato com a ideia da morte de um maneira lúdica (isso existe?!). Outro dia ela me disse que quem morre vai 'lá para baixo', fazendo uma expressão muito grave. Eu pensei que o 'lá para baixo' era o Inferno e perguntei-lhe onde era o 'lá para baixo'.