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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Eros, Psyché e as Penteadeiras

Se há algo que adoro é conversa inteligente sobre coisa nenhuma. Numa dessas, com um dos meus interlocutores prediletos, também conhecido como João Luís Carvalho, disputávamos quem tinha a memória mais arcaica, lembrando de móveis e utensílios que caíram em desuso e hoje ninguém mais sabe do que se trata. Lembramo-nos de coisas do arco da velha, como braseiros, escarradeiras, penteadeiras, e o João saiu-se com um tal de Pixixé (escrevo como entendi, afinal, eu entreguei os pontos nessa hora, porque decididamente eu nunca ouvira falar em pixixés e nem sabia que a palavra existia. Pensei até que fosse invenção dele. Hoje, no entanto, me deparei com a seguinte frase no livro "Ana em Veneza", do brasileiro João Silvério Trevisan:

"Junto à última parede, o deslumbrante psiché de jacarandá, com a banqueta estufada que mãe usava para pentear-se diante do espelho. (...) Dodô teve tempo de ver o lindo psiché Biedermeier passar diante dela, amarrado dentro de um carro de boi, aos solavancos, indo embora em meio a outros trastes."



Claro, corri ao dicionário só para confirmar: o que os portugueses pronunciavam como pixixé, vinha de Psiché, ou Psyché. Sim, estamos falando de mitologia grega, meus senhores! Senão, vejamos:

PSICHÉ - (Do mit. gr. Psyché, atr. do fr. psyché) Grande espelho móvel e inclinável montado numa armação; Móvel de toucador, com grandes espelhos e muitas gavetas. (Dicionário Aurélio)
Ah! O português, os portugueses, e seus encantos! Inacreditáveis os caminhos de nossa língua (sem segundas intenções, por favor)!
Agora, eu pergunto: O que uma penteadeira ou toucador têm a ver com o mito de Psyché?  Algum filósofo ou psicólogo de plantão por aí?
TCHAN TCHAN TCHAN TCHANNNNNN...
Não percam, cenas dos próximos capítulos...

Apesar da complexidade mitológica, eu arriscaria o imediatismo da ligação entre o espelho e o amor pela beleza. Clique no link para saber mais sobre o mito de Eros e Psiquê e arrisque suas próprias conclusões.

domingo, 8 de maio de 2011

A ver navios

A primeira vez que li este poema, andava eu grávida de muitos meses e fiquei pasma ao constatar que alguém, e além de tudo um homem, conseguia traduzir em palavras tão exatamente a sensação que eu sentia ao conduzir meu próprio corpo. Eu era um cargueiro prestes a adernar. Apesar de sempre ter lido muito Drummond, ainda não tinha descoberto este poema. Acho-o de uma sensibilidade extrema. E aproveito o dia das Mães para dar a oportunidade a mais alguma que queira identificar-se com navios prenhes de esperança.
foto do filme "Terra estrangeira" de Walter Salles e Daniela Thomas.
«Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo, e espera.
Como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança.»
(...)
("Ciclo", de Carlos Drummond de Andrade - A vida passada a limpo.)

domingo, 7 de novembro de 2010

James Joyce

Outro dia, flanando por Zürich, deparei-me com a casa onde morou James Joyce. Por acaso, eu tinha lido 2 dias antes que ele escrevera aqui parte do seu Ulisses.
Taí a prova. Alguém consegue ler?!

Apesar de irlandês, ele morou cá muitos anos e inclusive está enterrado próximo ao Zoo de Zürich. As coisas que eu vou aprendendo sobre esse país...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago

Folhapress
São tantos os escritores portugueses geniais e que eu aprecio com verdadeira devoção! No entanto, recebo a notícia da morte de Saramago como se ele fosse o único. O motivo talvez seja o fato de termos sido contemporâneos. Mesmo ele já tendo nos deixado uma vasta obra, eu sempre fico pensando naquelas que ele ainda poderia ter escrito. Uma enorme perda que há de ser lamentada por toda a humanidade. Mas sem dúvida e antes de mais nada, também por mim. Ave, Saramago!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Flanando por Lisboa 2

No Rossio, em Lisboa, quase de frente da estátua de D. Pedro IV (para quem não está ligando o nome à pessoa: o nosso D. Pedro I, no Brasil), fica o café Nicola. Este era um dos pontos preferidos de Bocage e também de Domingos Caldas Barbosa. Este último foi considerado um dos maiores propagadores da Modinha em terras lusas. E não foram poucos os ataques que lançaram um ao outro, com direito a ofensivas pouco nobres de ambas as partes. É mais um reduto cultural que não se pode deixar de visitar. Repare bem na placa afixada por cima, no 1º andar, que eu assinalei com a seta em vermelho:
Sabe o que diz? Que ali, no primeiro piso, morou nada menos que Eça de Queiroz. Tenho ou não tenho razão para adorar esta cidade? Sinto-me revitalizada de caminhar por estes lugares impregnados de história. Lisboa me inspira e me comove. Posso ler seus autores como se eu também fizesse parte do cenário. Não há privilégio maior para um espectador, do que pensar todas as cenas de dentro do próprio palco.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Flanando por Lisboa

Alô, caros visitantes que por aqui erram. Peço desculpas pelo abandono deste blog durante alguns dias, mas tive que reabastecer meu espírito. É que as saudades de Portugal já me faziam estragos na alma e lá fui eu rever a terrinha. Estive naqueles lugares que fazem meu coração bater mais forte e assim, passo a compartilhar algumas das minhas alegrias nestes poucos dias que se passaram. Desci na nova estação do metro do Terreiro do Paço em Lisboa e um forte cheiro a maresia tomou conta de tudo. Para quem andava enregelando em meio ao Outono das montanhas suíças, isto caiu-me como uma benção nos ossos. Que calorzinho bom! Daí foi só deixar-me guiar pelo instinto e vejam onde meus passos me conduziram: Reconhecem?! Sim... lá no fundo... o Martinho da Arcada.
Para quem ainda não teve o prazer de conhecer, o Martinho da Arcada é um Café Restaurante que foi muito frequentado por Fernando Pessoa. Sítio agradabilíssimo, onde também se pode tomar um bom porto ou uma boa ginja (não é, Rachel?), enquanto se observa o movimento dos transeuntes. Ainda hoje ocorrem muitas tertúlias por lá, que nós brasileiros chamamos de saraus literários.
Não pude deixar de pensar numa nova amiga que fiz aqui na Suíça, a Adriana, com quem partilho alguns gostos literários. A propósito, amiga, consegui o nosso "Caim" e, como sempre, o Saramago não deixa nada a desejar. Que me perdoem os polémicos defensores (ih, voltei escrevendo português de Portugal!)..., digo, que me perdoem os p.o.l.ê.m.i.c.o.s defensores da Igreja, mas sei reconhecer um grande escritor quando o leio. Ave, Saramago!
Ir a Portugal, é se embrenhar no melhor do que há na literatura. Ali passeia-se pelos cenários do Eça, frequenta-se os cafés por onde andaram a pegar-se o mulato Caldas Barbosa e Bocage, vê-se a casa de Cesário Verde, Mário de Sá Carneiro, come-se um pastel de bacalhau na Brasileira ao lado de um qualquer dos heterônimos de Pessoa. Como não apaixonar-se?
Ai, Portugal... Eu estava com saudades.