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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dizem as más línguas que ele até trabalha!

Agora, se você for à Lapa, não vai mais perder a viagem: há de encontrar algum malandro, com certeza. Não onde você espera, nem mesmo como você imagina. Mas esta pedra o Chico já havia cantado há muitos anos atrás:

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem
que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem, não existe mais.

Agora já não é normal
o que dá de malandro regular, profissional,
malandro com aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social,
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se dá mal.

Mas o malandro pra valer, não espalha,
aposentou a navalha,
tem mulher e filho, e tralha, e tal...
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
mora lá longe e chacoalha num trem da Central.

(Homenagem ao malandro - Chico Buarque- 1978)

Fui buscar essa música porque uma notícia hoje na Folha de São Paulo me fez pensar sobre essa homenagem que os garis do Rio de Janeiro estão prestando aos eternos habitués da Lapa. Veja:
Não ficou um charme o detalhe do chapéu Panamá integrando o uniforme? Só que há uma contradição total nisso: malandro trabalhando, meu nego?!!! Uniforme de trabalhador fazendo homenagem a malandro?!!! Nossa! Que nó!
Mas a verdade é que o Brasil é sincrético até nisso. Acendemos uma vela para Deus e, na dúvida, outra para o Diabo. É mais garantido. E somos sincréticos também ao sermos muitos: Num mesmo gari, que se esfalfa no trabalho diário de limpar as ruas para garantir o pão no final do mês, há também espaço para o malandro que, despido o uniforme, cai no samba e vira noites pelos bares, rodas de samba e mesas de jogo de cartas marcadas. O brasileiro dá duro. Vende o almoço para comprar o jantar. Há muita luta, mas também há muita esperteza malandra. Não fosse assim, como sobreviver ao caos diário da existência? É... nós somos um poço de contradições.
Veja esse outro vídeo do gari Sorriso no Carnaval:
Não é a nossa cara?!!!
E você? O que achou disso tudo?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uma árvore de contradições

A árvore de natal de cristais Swarovski foi montada, como já acontece tradicionalmente, na Hauptbahnhof (estação central de trens/comboios) de Zürich. É de uma beleza tão estonteante, mas ao mesmo tempo me leva a uma infinidade de sentimentos tão contraditórios, que não sei o que pensar. Eu explico:
Cada um dos enfeites colocados no pinheiro é constituído por uma peça de cristal de lapidação caríssima. Quando bate a luz, os efeitos nos deixam logo embasbacados. Não há como não pasmar diante de tal beleza.
Veja esse enorme cristal, ao pé da árvore, quase do tamanho de uma abóbora:

Minhas fotos, como sempre, não são lá grande coisa, mas você pode ver tudo melhor neste outro link.
Só uma pecinha destas, medindo 18 X 10 cm, custa cerca de 376€.
Veja. Consegue imaginar? Fazer as contas? Quanto vale uma árvore de natal gigante como esta da Bahnhof?!
Calma... Eu não sou insensível à beleza e à arte. Claro, a lapidação de cristais é uma arte arrojadíssima. E uma das funções da arte é fazer pensar (comigo isto já está funcionando). Também não sou uma pessoa utópica, socialista, comunista, nem qualquer outro 'ista'... Mas não consigo deixar de pensar na canção "Esquadros" da Adriana Calcanhoto:

Eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Ah! Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus

Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela,
Quem é ela, quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle.

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado.

E é do meu irmão, que ouve e vê coisas que sempre me fazem prestar muita atenção (e que tem um blog muito bacana mas anda com preguiça de postar), que eu roubei estas fotos:

Meninos no lixão em Irecê, Bahia. Foto de Raphael Paiva.
Molecada do lixão, Irecê, Ba. Foto de Raphael Paiva.

Índios da reserva Inhacapetum, em São Miguel das Missões, RS. Foto de Raphael Paiva.
Então? Olhou bem para as fotos das crianças acima? Agora consegue ver e imaginar a árvore de cristais Swaroski?!
Há muito para fazer no mundo, não? Por onde é que a gente começa? Não sei porque, estou começando a achar esta árvore muito feia! E cada vez mais acho linda a vontade de viver que se vê nas carinhas sujas pelo mundo afora. Durma-se com uma consciência destas. Tô chata, né? Tenho certeza que muita gente preferia que eu contasse apenas sobre a maravilha de se morar na Suíça. Sinto muito. Acho que o mundo só vai ser lindo quando pudermos todos (aqui, no Brasil, em África, na Suécia, no Darfur, no Afeganistão, na China, nos Estados Unidos, na França, enfim... ) ter a mesma dignidade de vida.

domingo, 13 de setembro de 2009

Desenhos contra a chuva

Andava eu com dois problemas para resolver:
  1. O que fazer com tantos desenhos da Carolina que, como vocês sabem, tem uma vasta produção;
  2. Comprar-lhe um guardachuva para levá-la à escola porque, como vocês também devem saber, partilhar o mesmo guardachuva com a filha pequena é como comer tatu: dá dor nas costas!

Como sempre ocorre nestas horas, resolvi por mãos a obra e matar os dois coelhos com uma só cajadada.


Juntei alguns desenhos dela de que gostava, e comprei um guardachuva branco.

Alfinetei os desenhos na parte interna do guardachuva e depois copiei os contornos com guta preta.

Fiz o mesmo em cada uma das partes, até o guardachuva ficar repleto de desenhos.

Ficou mais ou menos assim...


Aí fui pintando os desenhos e preenchendo os fundos para dar alguma unidade àquilo tudo. A danadinha não saiu do meu lado, sempre dizendo: "a roupa do Mickey é azul com uma bola amarela, a do Bafo de onça tem a bola castanha ..."
Nossa! Como ela fala! Acho que estou com calo nos ouvidos!


Aí o guardachuva foi ficando com uma nova cara.

Depois de tudo, passei pelo avesso com o ferro de engomar. (Não, claro que o guardachuva não era de nylon! Era de um tecido impermeável, uma mistura de algodão com poliester...)

Depois de pronto, ainda apliquei-lhe uma camada daquele spray impermeabilizante que se usa nos sapatos, só por garantia.
Pronto! Dei uma aplicação aos desenhos da Carolina, e resolvi a questão da compra do guardachuva. Ela agora tem uma proteção para os dias chuvosos bem personalizada, e já está doida para mostrar os desenhos e contar suas histórias para os coleguinhas e a nova professora.
Hummm... acho que vou roubá-lo de vez em quando... O que você acha? Vou ficar com uma cara ridícula de mãe babada?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Porto e a degradação urbana

Eu já falei da degradação urbana noutro post. Ainda fiquei aqui pensando nisso...
Quando conheci a lusitana cidade do Porto, fiquei impressionadíssima com a magnitude que exalava de seu passado, e com a imagem degradada das fachadas que ameaçavam ruir na ribeira. Pensei cá comigo: eu seria capaz de amar essa cidade como se aqui fora nascida. O Porto tem um apelo inequívoco.
Mas não se iluda: é aí, na ribeira do Porto, com seus casarões, seu perfume nostálgico, que a noite acontece! Tudo se enche de vida, de álcool, de pessoas lindas, de um movimento estonteante que nos deixa mareados como se andássemos num mar agitado dentro de um frágil barquinho. A certeza da aventura nos deixa embriagados. (Tudo bem: nem vou negar que eu bebi um bocado essa noite).
Dando continuidade à construção de objetos que mostravam a degradação urbana, pensei em utilizar as caixas de vinho do Porto para falar de todo esse sentimento forte que o Porto me provocara. Lembram-se das caixas de madeira em que vendem os tais vinhos?
Parti daí para reconstruir minhas fachadas decaídas.

Essa mistura de todo tipo de intervenção aparece somada à influência da arquitetura oriental, tão presente em muitas cidades portuguesas.
Substituí a tampa de madeira por um vidro, que ajudou a fazer a própria moldura. Dentro da caixa, no fundo, há pequenas aquarelas e, se olhar pela janela, poderá ver uma pessoa no 1º andar a tocar violoncelo, uma família logo mais adiante assistindo à TV... enfim... a simultaneidade de afazeres que se tem ao contemplar um edifício qualquer cheio de vida.
No entanto, a mágica para mim se dá quando anoitece e... TA DANNNN!!... as luzes se acendem!

Sim, a ideia era essa: virou uma luminária de parede. Com direito a cusquice (termo português para bisbilhotice, ou cuidar da vida alheia, fofocar... por aí.) de xeretar pelas janelas adentro! Gostou?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sapato velho

Guardei os 3 sapatinhos que a Carolina usou quando aprendeu a andar, porque achei que seria engraçado um dia ela poder olhar para eles... São dois pares de tênis, um vermelho e um na cor natural, que ficaram tão acabados, mas tão acabados, que parece que foram à guerra. O outro, era um sapatinho vermelho, usado nas ocasiões especiais. Ela ficava mesmo lindinha com eles... Só que eu não tinha ideia do que ia fazer com aquilo. Acabei por decidir colocá-los em 3 quadrinhos, formando um composé, que hoje fazem parte da decoração do quarto dela.
Usei daquelas molduras altas, com vidro e forrei o fundo com papel de parede.

Esse par é o mais acabado. Acho que ela deve ter feito uns 80 km com ele! Vai, volta, cai, levanta, arrasta, balança as pernas... eita! que custo que é aprender a andar!

E esse foi a Tia Marieta que deu. Mandou pela Vanuza. Se ela já a conhecesse pessoalmente, nem assim ela teria acertado tanto na prenda. Era a cara dela!

"Você lembra, lembra?... /Eu costumava andar bem mais de mil léguas pra poder buscar/Flores de maio azuis e o teu cabelo enfeitar./ (...) É talvez eu seja simplesmente como um sapato velho/ Mas ainda sirvo, se você quiser/ Basta você me calçar, e eu aqueço o frio dos teus pés."
Os sapatos da infância nos aquecem a alma.

sábado, 29 de agosto de 2009

Na porta da escola

_ Então? O que aprendeste hoje na aula?
_ Ué... uma música.
_ Outra música? Mas isso não foi ontem?
_ Sim, mas hoje eu aprendi uma nova música. Sabes? Isso aqui não é uma escola séria. É só uma escola de música!

Não bastasse ser eu uma musicóloga, ainda ter de ouvir isso de uma pirralha de 5 anos?!!! Um dia eu explico para ela a profissão da mamãe... (com um brilho de fel nos olhos) E hei de desencavar essa certeza simples com que me apunhalou o peito. Sim, porque as mães também sabem ser vingativas! (Limpando o veneno do canto esquerdo da boca)...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Campo de girassóis na base da confiança

A caminhada matinal me revela algumas belezas. Ontem deparei-me com esse campo de girassóis. O bacana aqui onde eu moro é que existe o hábito de se plantar flores de diversos tipos (não só girassóis), e depois, quando estão floridas, no ponto de colher, qualquer pessoa pode ir lá e apanhá-las para levar para casa. Há sempre um cofrinho ou caixa com o custo de cada flor. Você compra flores de ninguém (ou alguém, sei lá).Basta você colocar lá as moedinhas, e escolher o que quer e manter os vasos da casa floridos. Pasme: não há ninguém no raio em que a vista alcança. E todo mundo lá vai e coloca as moedinhas quando quer as flores. Não é legal? É tudo baseado na cidadania, na confiança e no livre arbítrio. Adoro isso!
Neste caso, cada flor de girassol custa CHF 1,20 (Um franco suísso e vinte rappen), ou R$ 1,80(um real e oitenta centavos), ou ainda € 0,80 (oitenta cêntimos de euro). É muito mais barato que no supermercado ou na floricultura.

Vou hoje buscar umas flores noutro lugar aqui próximo. Mesmo sistema, flores diferentes, de cores sortidas. Depois eu posto aqui.

domingo, 26 de julho de 2009

Internet e criação

Li um texto do Umberto Eco há muito tempo atrás, onde ele dizia umas coisas que deixavam muito em que pensar: ele falava sobre a máxima "Esporte é saúde". E avaliava que isso só era verdade do ponto de vista do atleta, praticante do esporte, a despeito do que muita gente pensa. Porque o gajo que fica em casa no sofá, diante da TV, assistindo ao futebol no fim de semana, obviamente não está incluído nesse benefício saudável. Ou seja, só vale para quem realmente o faz ou pratica!
Muitas vezes, me pego com aquela vontade louca de bordar e, ao invés de ir buscar linha e agulha, acabo folheando algumas revistas italianas especializadas no tema, ou surfando na internet em sites dedicados a essa arte, e me delicio com aquilo tudo... no final de muito ver, saio saciada, exausta, e já sem vontade ou tempo para bordar. Tento nunca perder de vista que isso não satisfaz meu desejo de criar. O passeio que nosso cérebro dá por tudo aquilo, não substitui o fazer. Quem fez, foi o outro, está claro.
O mesmo se dá comigo em termos da utilização do computador e a navegação na internet: a ideia de criar esse blog se deve à percepção de que eu mais tenho sido uma "consumidora" da internet, do que uma "produtora". Consumir é importante, mas não traz os mesmos benefícios da produção. Para já, não é uma preocupação em produzir para um público específico. Por enquanto, me basta o benefício de saber que criei algo, pus meu cérebro para trabalhar, expressei algo que manda embora aquela ansiedade do fazer, do pensar, e do sentir. Num próximo passo, se isso tiver interesse para mais alguém, é definir esse público e encontrar aí nossos interesses comuns. Produzir para alguém que nos lê ou vê, que nos devolve alguma ressonância, concorda, discorda, pensa junto e, de preferência, incentivar esse alguém à própria criação. Muito pretensioso?
Internet também pode ser saúde!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O rastro do caracol
Bordado, arte e memória.

Eu já gostei tanto de desenhar, que desejei ser como uma espécie de caracol: um bicho que deixasse um rastro de desenho por todo lugar que passasse... Pressinto que carrego em mim uma espiral que projeta meu tempo avante sempre com uma volta pelo passado. Preciso conferir minhas memórias toda vez que vislumbro o próximo passo. Avanço lentamente num movimento de elipse que passa pela arte, pela música, pelo bordado, pela porcelana, pelos livros, pelos amigos, pelas viagens, pelas paixões, pelas saudades... por toda a minha história. Esse blog é o registro desta espiral.